A noiva

noiva

por Clarice Casado

Olhou muito compenetrada para a saia branca, rendada e muito rodada. Ajeitou uma das alcinhas da parte de cima do vestido, preocupada, pensando, “Ai, será que esse negócio não vai despencar na hora que eu for dizer “Sim!”?. Aflita, ainda perguntou ao homem que estava ao seu lado que horas eram. O homem, um velho que cheirava a tabaco, suor de cinco dias e cerveja, murmurou algo como “Dez pra cinco”, e virou pro outro lado bruscamente, como se estivesse lhe fazendo um grande favor. Pensou, “Velho estúpido, deveria era me respeitar, já que vou casar daqui a duas horas e dez minutos”. Suava. Devia estar fazendo uns 30 graus, e olha que ainda era outubro. Podia até sentir umas gotinhas quentes de suor escorrendo pelas suas costas ossudas. “Menina, come mais desse feijão”.

Nada do ônibus. O calor daquele dia típico de primavera naquela pequena cidade do interior da Paraíba fazia com que ardesse sua face rosada, que hoje estava ainda mais rosada, por causa do blush vermelho-terra, meio velho e ressecado, que a Matilde tinha insistido em passar nela, “Vai, sua boba, deixa eu passar, é chique, eu vi numa revista”. Boba era a Matilde, achando que aquilo iria alterar muito a sua imagem de noiva. Mudou, sim, fez com que ficasse com cara de mais velha, pelo menos isso, porque, afinal, casar com dezoito anos e contra a vontade do pai não era uma boa coisa, ela sabia disso, mas, fazer o que, tinha se apaixonado pelo Juninho como nunca tinha se apaixonado por homem nenhum nessa vida, e ele falou, “Vamos casar, Geralda, vamos, eu amo você e você sabe disso”, pronto, bastaram essas palavras para a Geralda se derreter todinha, como se derretem todas as mulheres com qualquer punhado de palavras ditas por homem apaixonado.

E o ônibus, nem sinal. Os sapatos brancos de couro, com um bico muito fino que a Matilde tinha emprestado já doíam (ela estava era acostumada com um bom par de sandálias de tiras de couro cru, bem baixinhas, confortáveis), e então ficou pensando no trabalho que aquelas bolhas iriam dar pelo resto da semana, quando tivesse que arar a terra com o pai. Lembrou-se da cara carrancuda do velho quando ela estava saindo de casa, toda vestida de noiva e bonita, do velho com aquele jeito dele, de desaprovação mas também já meio que se arrependendo, já meio doido de vontade de sentar ela no colo e cantar cantigas antigas, cantigas do tempo em que ela ainda cabia direitinho no colo dele. “A tua mãe se tivesse viva ia fazer a mesma coisa, ela nem ia gostar desse Juninho, disso eu sei, porque ele é moço bonito demais, só vai dar trabalho pra você, vai te aprontar, e você vai voltar correndo pra casa chorando e daí nem vai adiantar, porque você sabe que eu não vou passar a mão na sua cabeça de vento, minha Florzinha, você sabe disso”.

E as palavras estavam ali, dançando no pensamento dela, agora estavam até martelando, porque começou a sentir um tantinho de remorso, e um tantinho de pena do pai. Ela havia prometido que iria continuar ajudando-o com a terrinha dele, que ele ia continuar plantando o milho, e que ela estaria ali, todas as manhãs. E à tarde continuaria com seu trabalho na escola, ensinando as crianças a ler e escrever. Ela sabia que o pai era todo orgulhoso porque ela tinha feito magistério na capital e que agora era professora, ele gostava de contar isso pros amigos, e ela ficava toda boba. Boba meio que se sentia agora, ali esperando aquele ônibus, pra ir casar com o Juninho na igreja da cidade vizinha, que era onde o Juninho morava, e, que ela soubesse, não ia ter muita gente no casamento, porque os pais dele também não aprovavam muito a coisa. O primo dele, o João Grande, ia estar lá, porque ele é que tinha feito com que os dois se conhecessem. E a Matilde, claro, mas ela ia depois, porque a lojinha de tecidos só fechava às cinco, e a patroa dela não quis de jeito nenhum deixar ela sair mais cedo pro casamento da amiga, “Cretina, mal-amada, isso é o que ela é”. A Matilde era uma moça meio brava, isso ela sempre foi. Lembrou-se do dia em que as duas estavam em uma festa de São João quando tinham uns treze anos, e a Matilde brigou com um rapazinho porque ele havia dito umas gracinhas pra ela. Só faltou bater no garoto. Aliás, ela queria bater, mas a Geralda não deixou.

Queria saber de novo as horas, mas ficou com medo de perguntar ao velho ranzinza. Pensando bem, até que o velho lhe lembrava o seu pai, com aquela cara sempre azeda, aquela cara de amargura, provocada pela vida e pelo tempo, e pelas coisas tristes e duras que ele já tinha passado. Quando a mãe da Geralda morreu, ela tinha três anos, pegou uma tuberculose e não durou nem uma semana. A Geralda não conseguia lembrar da mãe, e o pai só tinha uma foto dela, de quando eles casaram. Ela tinha ficado um tempão olhando praquela foto, só pra memorizar como era o vestido da mãe, porque ela queria um igualzinho. Mas na verdade não dava pra fazer igual, porque nada é igual nesse mundo, pensou a Geralda. Desistiu da foto, foi na costureira da lojinha que a Matilde trabalhava e falou, bem decidida, mas com as feições tristes, “Moça, eu quero um vestido branco pra casar, só isso, não precisa ter renda nem pedras, porque eu não tenho dinheiro para pagar”. A costureira olhou pra ela morrendo de pena, e disse, “Minha linda, você deixa eu fazer um vestido bem bonito pra você, deixa? É por minha conta. Essa minha barriga não conseguiu segurar filho nem filha, e eu fiquei assim, sozinha. Nunca vou ver um filho casando, então, deixa eu fazer um vestido bonito pra você, do meu jeito?”. A Geralda até meio que se emocionou, apesar de não ser moça dessas coisas, de choros e manhas, já que foi criada sem mãe. Mas gostou de ouvir aquilo daquela desconhecida naquele momento. Pronto, ela ia ser a sua mãe, naquele momento. Decidiu deixar a mulher fazer o vestido do jeito que quisesse, “Tá bom, então a senhora faz do jeito que achar mais bonito, pode até colocar renda, mas pedra não que eu acho meio metido a besta”, e a costureira ficou realizada, sorriu pra Geralda, e disse que ia usar uma linda renda que tinha chegado ontem do Nordeste.

O pai veio de novo no seu pensamento. Chegou mais um homem na parada, olhou pra ela, nem ligou. Às pessoas naquela terra não se surpreendiam com nada, não era uma noiva esperando o ônibus que iria mudar muito a vidinha pacata delas. Olhou ao seu redor, e ficou percebendo a cidadezinha, e os seus poucos movimentos. Parecia mesmo que nada se mexia por ali. Era como se fosse um quadro daqueles pintores famosos do Brasil que ela tinha estudado no colégio. “Paisagem ao Luar”, ela pensou que esse ia ser um título bonito pra um quadro, ela lembrava que tinha uns títulos assim. E já estava mesmo aparecendo um pedacinho de lua no céu, naquela terra o sol se punha cedo, e as pessoas paravam cedo. Vai ver que era por isso que cidadezinha parecia tão parada, pensou. Não, isso não, porque parecia parada de dia também.

O homem olhou de canto pra ela, uma vez. Agora ela notou que ele parecia meio nervoso, tinha um relógio de plástico amarelo no pulso, que olhava a cada dez segundos. Suava. Todos suavam. Mas ele tinha um suor diferente, não era apenas o cheiro, era o jeito. Geralda queria era que o ônibus chegasse logo, levava mais de uma hora pra chegar na cidade do Juninho. “Bom”, pensou, “o casamento não vai começar sem mim”. Ajeitou de novo a alcinha do vestido, que ainda insistia em cair.

Nem percebeu quando o homem mexeu em um dos bolsos da calça. Mas ele mexeu, parecia que procurava algo. O velho pegou fumo do bolso, e começou a preparar um cigarro de palha. Geralda olhou e nem ligou muito, mas ficou com um pouco de nojo das mãos do velho enrolando o cigarro, eram sujas, de terra e de sujeira mesmo, sujeira de uma semana sem banho. Fedia o velho, agora é que ela notara.

O homem estranho carregava uma sacola verde que parecia uma mala, e era toda de plástico, com uns detalhes em couro falso, marrom. Devia estar indo viajar também. Mas por aquelas bandas era tão comum ver gente carregando coisas como ver uma noiva em uma parada de ônibus. Ninguém nem notava. Ninguém tinha carro, o ônibus era o único meio de transporte para todos. Ou umas bicicletas velhas, mas ela achava que era melhor chegar na igreja caminhando, após ter descido do ônibus, que provavelmente ia estar quente e fedorento. Bicicleta ia acabar com seu vestido, que a costureira boa alma tinha feito com tanto carinho.

Tudo o que aconteceu depois que Geralda pensou na costureira e na bicicleta foi tão rápido e inesperado, que o velho do palheiro está até hoje tentando recompor os fatos e entendê-los. O velho nem terminou o palheiro, aliás.

Geralda mal acreditou quando viu o pai correndo em sua direção, o velho vinha meio que mancando (ele mancava), como sempre, mas corria mancando, com a velha espingarda na mão. O homem ao seu lado também estava tirando do bolso um revólver pequeno, que Geralda não sabia dizer de que tipo era, porque não entendia nada de armas. E ela não sabia que enquanto ela estava na parada do ônibus aquele mesmo homem estava assaltando a pobre casa do pai, e que lá tinha encontrado a caixinha de economias do pai, umas economias de uns vinte anos, pelo menos, porque ele se recusava a ir ao banco, achava que iam roubar o dinheiro dele. E ela só viu o pai vindo em sua direção, e automaticamente disse “Paizinho!”, e o homem ao seu lado, mesmo meio bêbado, agarrou-lhe pela cintura dizendo, “Para aí, velho, ou eu acabo com a tua filha”, e o velho, que enxergava mal, não entendeu a princípio tudo aquilo. Só viu a filha nas mãos do ladrão e sentiu um frio na barriga. Daqueles calafrios que só quem é mãe ou pai sente. Daqueles que dão medo de perder a própria carne, aquele medo de perder o próprio sangue e depois passar os resto da vida sem nunca mais ser uma pessoa de verdade de novo.

O velho só teve força de dizer, “Larga minha menina”, e a menina, toda vestida de branco, sentiu uma fraqueza tão grande nas pernas, uma fraqueza que inundou o corpo de um calor misturado com frio, com frio, com calor, mas conseguiu respirar, sentiu que ainda estava viva. Fechou os olhos. O estampido da espingarda foi claro. O cheiro de sangue também. O homem ainda a segurava. Sentiu sua mão molhada, mas não conseguia abrir os olhos. Estava de pé, ainda. O homem tombou ao seu lado, sentiu o baque surdo. Resolveu olhar. O vestido aos poucos ia se tingindo de um vermelho vivo, um vermelho igual ela nunca havia visto antes. Parecia aquele vermelho do céu de final de tarde, naqueles dias em que ela tinha a mais pura certeza de que Deus existia. A imagem vermelha cegou-a por alguns instantes. “Pai”, “Meu Pai”, pensou. As pernas foram fraquejando. Não entendia que o sangue era dela. O pai, que entendera, vinha desesperado em sua direção. O pai olhou fundo em seus olhos fundos. Calou e acariciou sua testa, “Filha, minha filha”, Geralda nada pode dizer. Segundos apenas. O velho pai apenas apontou a espingarda para o próprio peito. E os dois voaram de mãos dadas para longe dali.

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