Para onde vão os e-mails que não chegam?

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por Clarice Casado

À Luísa e suas sensíveis e perdidas palavras

O texto inicia-se com uma pergunta. A autora pergunta aos leitores? Pergunta ao infinito, ao vento, a quem pergunta? Não sei. Não sabe. A autora não sabe a quem pergunta, e a pergunta perde-se no tempo e no espaço, bem como os e-mails que nunca chegam. Que preocupação é esta, autora? Parece ser uma preocupação pequeno-burguesa altamente insignificante, mas não é!

Não, não é insignificante mesmo. Imagine-se escrevendo uma bonita e enorme e cheia de detalhes carta eletrônica (sim, porque quem gosta de escrever cartas apenas deixou de escrevê-las a mão para escrevê-las virtualmente), a carta termina, você envia muito contente ao seu destinatário, e aguarda a sua resposta. Passa-se um dia. Passam-se dois dias. E três, e uma semana, e, neste ponto, você ainda pode estar pensando que a pessoa é daquelas estranhas que checa a correspondência eletrônica de vez em nunca, mas vá lá, você ainda aguarda. E um mês transcorre e você já até esqueceu que enviou a carta, quando encontra, por acaso, o Fulano ou a Fulana a quem você havia enviado a carta na fila do cinema, não resiste e pergunta, “Escuta, você não recebeu o meu e-mail?”, e a pessoa olha para você com aquela cara mais calma do mundo, e fala, para o seu desespero, “Não, não recebi”, você faz aquela cara de tacho, decepcionadíssimo, tentando lembrar de todas as palavras que escreveu, triste, por que agora sabe, tem a certeza absoluta que a pessoa não recebeu. Decepção. Ódio do Bill Gates, da Internet e do mundo globalizado inteiro!

Uma prima querida e distante passou por esta trágica experiência dia desses, e a destinatária da carta eletrônica dela era eu. A cena foi exatamente esta, com exceção de que eu não a encontrei na fila do cinema, mas sim em uma de minhas viagens à minha terra natal, onde ela mora. Ela não podia conformar-se, pois disse-me que havia escrito uma longa carta, elogiando e comentando uma crônica minha, coitadinha, seu olhar e sua expressão eram de alguém que havia perdido algo muito importante. E havia mesmo, concluí: perdeu um momento. Um momento em que provavelmente estava muito inspirada, e escreveu coisas doces e verdadeiras para alguém de quem gostava. Um monte de palavras unidas que perderam-se no espaço virtual para sempre. Como resgatá-las? Não tem como. Aquelas exatas palavras, naquele exato dia, aquele exato sentimento que sentiu ao ler meu texto e fez com que me escrevesse nunca mais voltarão.

Algumas semanas após ter descoberto que eu não recebera sua carta, enviou-me outra, uma carta sensível e recheada de idéias interessantes, dizia ela que tivera problemas com sua caixa de e-mails, não tinha muita familiaridade com ela, e provavelmente estava a fazer algo errado na hora de enviá-los. Comentava ela sobre a angústia de escrever coisas que desejava fortemente que as pessoas queridas lessem, mas sem saber se elas efetivamente iriam ler. Fantástico. Penso que um dos aspectos da vida resume-se exatamente nisto: temos uma angústia constante porque não sabemos se seremos correspondidos, em todos os sentidos. Em todas as situações. Em todos os momentos. Em todas as tomadas de decisão. É ou não é?

O interessante é pensar que muitos pensamentos e atitudes nossas ao longo da vida ficam igualmente perdidas em algum lugar do tempo e do espaço. Palavras não ditas, gestos não feitos, decisões adiadas, ou, o que é pior, erradas, ou, pior ainda, jamais tomadas, por medo ou insegurança. Decidimos a cada dia de nossas vidas e a cada momento delas, mesmo sem perceber. Pequenas coisas que mudam o curso de nossas existências para sempre. Ter a consciência de que o poder de decidir e mudar está, em sua grande parte, em nossas mãos, é o primeiro passo a ser dado na dura jornada do auto-conhecimento. E são muito poucos os que conseguem.

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