A Moura Torta

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por Clarice Casado

Não há coisa melhor que a infância. Bem vivida, cheia de liberdade e ao mesmo tempo cheia de vigia e cuidado dos pais, cheia de brincadeira e picolé, cheia de primos e histórias. Cheia de bichinhos e de férias na praia. Cheia de alegria e quase nada de tristeza. Tão cheia de nós mesmos, crianças que fomos e que sempre às vezes queremos ser.

Mas, melhor ainda que infância é lembrança de infância. E lembrança de infância chega de repente, meio sem avisar, que nem amigo íntimo, que bate na sua porta em momento inesperado, mas sempre é bem recebido, com amor.

Veio outro dia me encontrar uma dessas lembranças. Veio daquele jeito que eu já falei, eu estava ali, e ela chegou meio intrometida, que metida! E se instalou, e ainda está aqui, comigo, depois de alguns meses, e agora vai pro papel, o que é bem interessante, já que essa lembrança saiu do papel pra me encontrar também, parecia até que dizia, “Oi, Clarice, vem me ver que bonita”, está bem, lembrança. E deixei ela entrar.

Um livro chamado “Contos Populares do Brasil” – que também me encontrou – no aeroporto de Recife, me trouxe de volta a lembrança de infância. Esperando por um voo para São Paulo, estava em uma livraria a folhear justo este livro, quando a lembrança pulou na minha cara: susto, um título, “A Moura Torta”, que eu não ouvia desde a infância. Um misto de imagens, uma atrás da outra, como um verdadeiro slideshow de computador, vieram à minha mente. O título do conto trouxe-me meu pai, muitos anos mais novo, de bermudas, na frente da churrasqueira, aquele cheiro de churrasco, noite, cheiro de suco de uva e de sereno e de maresia, barulhinho de mar, primos, risadas, noite estrelada, lua bem gorda, minha mãe cortando nossa carne, friozinho de litoral, minha avó e meu avô passando com pratos, copos e talheres por um caminho de lajes vermelhas que ligava a casa de praia à churrasqueira, eu, meus irmãos e primos correndo com medo do escuro e rindo e gritando atrás dos dois velhinhos, árvores, árvores, árvores tortas. Medo da Moura Torta. Depois do churrasco, meu pai de bermudas nos contando várias histórias, Formiguinha e a Neve, Velho do Surrão, A Moura Torta.

Na história dele, da qual só me lembro do fim, uma mulher se transforma em uma árvore torta, e passa a ser chamada de Moura Torta. Havia uma árvore no quintal da casa de praia da minha avó que era toda torta esquisita, e meu pai dizia, “Vocês estão vendo aquela árvore da avó de vocês ali? Pois a Moura Torta se transformou em uma igualzinha”. Pronto. Bastou isso pra que eu passasse todos as noites de verão da minha infância sem ter coragem de passar por perto da árvore. Meu pai contava histórias de dar medo, e a gente adorava. Pedia mais. Acho que as histórias de antigamente eram mais autênticas, não tinham essa besteira exagerada de “politicamente correto”.

E a lembrança então me encontrou. Comprei o livro imediatamente, e no avião comecei e terminei de ler a história, cujo final não tinha nada a ver com a que meu pai contava. Confesso que fiquei um pouco decepcionada. Logo após a história, havia uma nota do autor do livro, o conhecido crítico literário Câmara Cascudo, explicando que nos contos populares (que geralmente tem várias versões, de acordo com o país onde ele foi contado), os inícios e finais podem variar muito. Pois bem, o final de meu pai realmente era diferente. Na versão de Câmara Cascudo, há uma transformação e depois uma morte trágica da vilã, a Moura Torta. Na versão do meu pai, como já disse, a Moura transformava-se em árvore. Igualzinha à da casa dos meus avós.

Mas o problema para mim surgiu quando fui contar a meu pai sobre a descoberta do livro e do encontro com a lembrança. Ele não lembrava da história. Fiquei inconformada. Ele então foi atrás da história e provavelmente também de sua lembrança. Foi pesquisar a Moura na Internet, solução para todos os males modernos. Ele não só achou duas outras versões diferentes da história, como lembrou-se que tinha um livro de um dos autores das tais versões. Concluiu, portanto, que provavelmente lera a história e a modificara para nos contar. Realmente, na versão dele, não havia morte nenhuma. Poupou-nos do pior. Foi, portanto, um pouco politicamente correto, em uma época em que ninguém ligava para isso.

Ainda inconformada com a não existência clara da lembrança para meu pai, fui em busca da ajuda e das possíveis lembranças de meus companheiros de infância: meus irmãos e um primo. Também pela Internet, claro. Recebi respostas negativas tanto de minha irmã, que jamais ouvira falar da Moura, quanto de meu primo, que apesar de ter uma memória fantástica (especialmente para lembranças de infância, que coleciona várias), também não se lembrava. Lembrava de outras histórias, não dessa.

Fiquei decepcionadíssima. Das duas uma: ou vivi outra vida, ou sou completamente louca. Nenhuma das duas. Não acredito em outras vidas e não sou doida. Cheguei à conclusão que há memórias únicas e particulares. Lembranças de infância que existem só para uma determinada pessoa. Outras pessoas até podem tê-la vivido (porque lembro-me perfeitamente de meu pai contando a “Moura” para todos), mas, por alguma razão mágica, apagaram-na da memória, restando ela apenas para a pessoa que algum dia a utilizará da maneira mais especial. No meu caso, tenho agora clara a explicação: a lembrança do conto da Moura, somente existente para esta que ora vos escreve, ficou em mim, e encontrou-me novamente para que eu pudesse contar-vos hoje a minha versão de A Moura Torta. E, modéstia à parte, acho que o meu final é o melhor de todos.

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