O mendigo da Rua da Praia

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por Clarice Casado

Ela fazia todos os dias o mesmo caminho. Subia com passo vagaroso a Rua da Praia, apelido carinhoso que os habitantes da cidade davam a uma das ruas mais antigas da cidade. Uma rua sem praia, mas que um dia fora banhada por um rio. Daí o apelido.

Passeava despreocupada pela rua, às vezes fazia compras e outras ia à pedicure. Mas aquele caminho era religioso, sagrado como a missa de domingo. Nada como a rotina, sabia ela. A rotina a matinha viva, alegre e ativa aos oitenta e cinco anos, anos todos bem vividos, com alegrias e sofrimentos, anos que quase ninguém lhe dava, “Nossa, mas como a senhora é moça, parece muito menos”, e ela dizia, “Já tenho até bisneto!”, toda orgulhosa.

A rotina tem dessas coisas. Dessas coisas de rotina que a fazem ser rotina. Pode ser um acordar todo dia no mesmo horário, pode ser tomar sempre o mesmo café da manhã e ainda ficar feliz com isso. Ela pensava que bobos eram os que não gostavam de rotina. Bobos eram os que precisavam de acontecimentos-surpresa para viverem mais satisfeitos. Só quem já viveu dias completamente fora da rotina sabe que nem sempre eles são bons.

E sua rotina incluía em dar, todos os dias, uma pequena esmola a um pedinte, um mendigo que praticamente morava na tal Rua da Praia. Um homem, um deficiente físico, que há anos pedia dinheiro no mesmo lugar, batendo com uma caixa no chão toda vez que um pedestre passava por ele. E ela depositava então aquele sagrado dinheirinho todos os dias na caixa do mendigo, e o mendigo agradecia-lhe sorrindo, um sorriso amarelado de quem nunca foi ao dentista, um sorriso de rotina.

Certo dia, passeava ela por sua rotineira rua quando teve a rotina quebrada: uma emissora de televisão local gravava uma reportagem exatamente ali. Olhou despreocupada e até desatenta para a câmera, e continuou seu passo sem pressa. Sem a pressa dos que odeiam a rotina.

À noite, o telejornal da cidade transmitiu a reportagem. Ela estava assistindo, viu-se na telinha e sorriu. Enquanto o repórter falava, ela passava vagarosamente, o que lhe rendeu uns bons minutinhos de “fama”, todo mundo tem direito aos seus uma vez na vida, afinal. Logo começou a receber telefonemas da família, primeiro uma neta, depois uma amiga, ainda uma prima distante, com quem há muito não falava. Nem sabia o que dizer, pois fazia tempo que uma quebra de rotina não a surpreendia.

No dia seguinte, saiu de manhã para seu passeio de costume. De longe, avistou o mendigo já a bater com sua caixa no chão. Poucos eram os que lhe depositavam algum dinheiro. Pensou rapidamente no homem e em sua sofrida vida. Sua sofrida rotina. Ficou pensando se ele gostava daquela rotina. Ela fazia parte da rotina dele e o contrário também era verdadeiro. Imaginou que um dia talvez ele não estivesse mais lá, e ela acharia estranho. E ele também ficaria muito desapontado no dia em que ela não pudesse mais passar por lá e dar-lhe a esmola. O que seria deles?

Chegando perto do homem, com o troquinho já no bolso, parou. Olhou para ele com um misto de ternura e pena. Colocou o dinheiro na caixa. O homem encarou-a e, pela primeira vez, falou com ela, “Eu vi a senhora ontem na televisão!”, com um entusiasmo imenso, com orgulho, como se um parente próximo ou um amigo querido tivesse sido aquela celebridade momentânea. Ela ficou surpresa. Agora a surpresa era dela. Outra quebra de rotina: dois dias seguidos. “Como assim, ele me viu na televisão?”, e ela apenas sorria para o homem, sem saber o que dizer, “Pois é…”.

O mendigo a tinha visto na televisão. Isso era fato. Mas, como? Se ele vivia na rua, como poderia ter uma televisão? Onde seria sua “casa” ou algo parecido? Embaixo de alguma ponte? Como ligaria a televisão? Será que alguém o trazia todos os dias para aquele mesmo lugar para esmolar, e à noite o levava de volta a alguma humilde casinha, que tinha televisão? Teria ela financiado ou ajudado a financiar a televisão, com aquela esmola diária?

Todas essas perguntas brigavam em sua cabeça ferozmente, tentando desvendar aquele difícil enigma, enquanto ela se afastava do homem. Nenhuma pergunta encontrava resposta. Em sua mente, apenas uma confusão imensa, uma sucessão de imagens que eram em preto e branco. O homem atirado na rua, ela sendo filmada, ela vendo TV em casa em seu confortável sofá, o homem também assistindo à televisão em uma maloca qualquer da cidade. Sentiu-se um pouco traída. Pensava ser a esmola uma ajuda em sua alimentação e vestuário, mas, em realidade, talvez ele tivesse usado aquele dinheiro para comprar uma televisão. Mas, o que importava?

Quanto mais pensava, mais se convencia da total quebra em sua rotina que aquele fato causara. Por isso odiava quebras de rotinas. Por isso amava viver todos os dias a mesma rotina. Pensou na importância daquele fato para o mendigo. Talvez fosse mesmo algo importante em sua vida: a senhora que lhe dava esmola todos os dias aparecera na televisão.

Foi dormir naquela noite pensando naquilo. Não conseguia compreender. Pensou em conversar com ele no dia seguinte, tentar saber como a tinha visto na televisão, onde morava, o que fazia durante a noite. Sim, porque de dia ele ficava ali, ela sabia, porque passara pelo mesmo ponto em horas diversas. Adormeceu com esse pensamento vivo em sua mente. Sonhou com isso. Deve ter sonhado. Não lembrava direito, mas, quando acordou, tinha a nítida sensação de ter sonhado que estava vendo televisão com o mendigo na rua, exatamente no ponto onde se encontravam todos os dias.

No dia seguinte, pela primeira vez saiu de casa sentindo-se esquisita. Como há muito não se sentia. Era até um pouco de medo. Medo de coisas desconhecidas. Medo de que sua rotina pudesse ser novamente quebrada, medo de ser assaltada pela surpresa, medo de nada ser como antes. E não seria. Ela sabia que não seria. E ele também.

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