A arte de saber fazer-se desnecessário

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por Clarice Casado

Li outro dia em uma revista que ser pai ou mãe é a arte de saber fazer-se desnecessário. Um dia. Um dia, claro. Aos poucos, à medida que os filhos vão crescendo. Não sei se concordo com tal afirmativa. Posso até concordar que precisamos aprender a nos desgrudar aos poucos dos filhos, mas não concordo que seja arte, porque arte não se aprende. Arte que é boa nasce junto com o artista.

Assim, dizer que é “arte” a consciência de que nossos filhos não precisarão eternamente de nós é maluquice. Podemos aprender a deixar nossos filhos viverem independentes, sem nós – isso, sim. Mas não creio que cortem completamente o cordão umbilical. A ligação é eterna. Só quem não é mãe (ou pai, também) pode dizer que os filhos um dia deixam de precisar de nós completamente.

Essa reflexão surgiu-me porque hoje meu filho partiu pela primeira vez com sua escola para um passeio mais longe, foi à praia de Santos, em São Paulo, para visitar o Aquário Municipal, que é muito conhecido na cidade. Estava eufórico há dias com a expectativa da curta viagem. Contando os dias. Fazendo planos, falando sobre os vários tipos de peixe que veria. Hoje, acordou-se às seis da manhã e veio até mim com um sorriso, “Mamãe, é hoje o dia!”. E eu, compartilhando de sua felicidade, e ao mesmo tempo apreensiva com o fato de ter que deixá-lo ir, “É, filho, que bom!”, para transmitir-lhe toda a segurança de que precisava.

Nos vestimos e arrumei para ele uma pequena mochila, com lanche, água, uma revistinha, um joguinho. Disse-me que não precisava de nada daquilo, a professora avisara que haveria lanches no ônibus e almoço no local, e que eles fariam também atividades divertidas na viagem. Ou seja, surpreendeu-me com sua maturidade e independência rejeitando os pedaços de mim que eu estava enviando na forma do lanche, da revistinha… Mas, tudo bem: aprendendo a deixá-lo ser independente.

Já na escola, os outros amiguinhos traziam também sorrisos satisfeitos, andavam de um lado para o outro, e as mães e pais, ao redor, com as feições exatamente iguais às minhas: misto de felicidade com preocupação. Normal: tentando aprender (com eles) que devemos deixá-los serem independentes.

Em fila, partem para o ônibus. Meu filho me vê, para, me enche de beijos rapidamente, e segue os amigos. Entram rapidamente no ônibus, vejo sua cabecinha entre as poltronas, pelas janelas. Senta-se bem perto de uma, procura-me, começa a acenar vigorosamente, mandando beijos e sorrisinhos. Ouço a música das vozes dos pais, “Onde está o Fulano?”, “Está ali, eu vi, ao lado do meu!”, acenam, mandam beijos, abençoam (várias bênçãos!), “Vai com Deus, minha filha!”.

Nós, ali: assistindo ao começo da independência de nossos filhos. Sorrindo muito, vamos passar-lhes segurança. Mas vamos deixá-los ir. O ônibus dá a partida, as vozes dos pais aumentam e se confundem em um mar de “tchaus” e acenos sem parar. As crianças todas riem. A expectativa da chegada em um lugar desconhecido, pensei, “O que será que estão pensando agora, cada um?”. Um nozinho na minha garganta, aquela vontadezinha de chorar, apertinho no coração. E o sorriso firme nos lábios, meus olhos fixos nos dele.

Um espetáculo. Verdadeiramente, felicidade em estado bruto. Isso sim, arte.

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