Balão surpresa

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por Clarice Casado

Ela nasceu em uma tarde de terça-feira, um feriado nacional. Não lembra-se de nada, como de nada lembra-se ninguém, sobre o momento em que nasceu. Dizem que vemos uma luz. É claro. Saímos do escuro para o claro, de maneira tão abrupta, que deve assustar. E não foi à toa que chorou, meio baixinho, mas chorou. Todos choramos quando nascemos, e não é por acaso. Das trevas faz-se a luz. Engraçado é que dizem que quando morremos vemos também uma luz. Ela gostava de pensar que quando morremos voltamos ao útero. Mais ou menos isso. É como se voltássemos ao melhor lugar do mundo, aquele lugar do qual jamais gostaríamos de ter saído.

Sua mãe conta que estranhou quando ouviu seu choro baixo, “Muito baixo”, disse que pensou. E achou-a muito roxinha quando a viu pela primeira vez. Quis saber se ela estava bem, o médico disse que sim. Ela achava super engraçado ouvir sua mãe dizendo que queria senti-la, claro, afinal, ela havia morado na barriga dela por nove meses, mas, quando sentiu seu rostinho pequeno tocando-a, sentiu um pouco de nojo, só um pouco, porque seu rostinho estava todo gosmento, com aquela gosma de nenê que recém saiu da barriga da mãe. Ela gostava de saber que a mãe era sincera. E sabia que não ia ser um nojo de gosma de bebê que as afastaria na vida, não.

Adorava ouvir essa história, a história do dia do nascimento dela. A melhor parte era ouvir o que aconteceu antes. Sua mãe nunca disse que a sensação era “indescritível”, como costumam dizer a maioria das mulheres que passaram pela experiência de dar à luz. A mãe descrevia tudo como ninguém.

Primeiro tudo calmo. A barriga estava ali, e logo iria desaparecer. Aquela barriga grande, enorme, imensa. Aquela barriga que a mãe não suportava mais carregar. Ansiosa, queria ver logo o rostinho dela. E ela queria mesmo sair. E vai ver que a mãe sabia disso. Então a mãe dizia que se sentia como um balão surpresa. “Balão surpresa?”, ela perguntou na primeira vez que ouviu. É. E então a mãe explicava que quando era pequena, nas festinhas de aniversário havia um negócio chamado balão surpresa. Os adultos enchiam um enorme balão com um monte de coisas: balas, doces, pequenos brinquedos. Depois, enchiam de ar, como um balão normal, e o penduravam no teto do lugar onde estava sendo a festinha. Em um determinado momento da festa, a criançada era avisada que estava na hora de estourar o balão. Iam todos para debaixo do balão, esperando ansiosamente o momento do balão ser estourado para que caíssem todas as surpresinhas para as crianças se matarem de gritar e de pular e às vezes de brigar para pegá-las. Na verdade aquilo não era bem uma surpresa, porque as crianças já sabiam mais ou menos o que iria sair dali. Mas não exatamente. O balão precisava ser estourado para que as crianças descobrissem e vissem de perto quais doces, balas e brinquedos estariam no balão. E então vinha a melhor parte da história: sua mãe amava o balão surpresa, mas morria de medo daquele momento. Fica curiosíssima para saber o que tinha lá dentro, mas morria de medo dos momentos que antecediam o estouro do balão, bem como o momento do estouro. Odiava aquela criançada pulando umas em cima das outras, se matando pra pegar umas balas e brinquedinhos. Achava tudo meio louco. Seu coração batia forte, apertado. Muitas vezes, a mãe de sua mãe corria junto com as crianças no momento do balão para ajudar a filha, porque sabia que a menina ficava apavorada e acabava não pegando nada. E minutos após o estouro do balão, sentia um alívio tão grande que muitas vezes queria chorar.

Ela levou muitos anos para entender por que sua mãe sentia-se como um balão surpresa. Um dia, entendeu. A mãe enfrentou o balão de novo no dia que ela nasceu. Morreu de medo, achou que o coração iria sair-lhe pela boca, mas assim que viu a surpresa do balão, tudo passou. E chorou. Um choro de alívio, felicidade, satisfação. Um choro da mais pura qualidade. Choro de mãe.

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