Confissão

confissao

por Cassiano Rodka

“Going to your funeral now and feeling I could scream
Everything goes away
Driving down the highway through the perfect sunny dream
A perfect day for perfect pain”

“Going to Your Funeral”, Eels

Confesso que fingi quando chorei.
Não que não seja triste que tenhas te ido, mas bem sabes… E não que não tenha te amado, te amei muito. Mas não mais. Quando te encontrei morto, confesso que até sorri. Estava preparada, já havia tantas vezes me imaginado nessa situação, e lá estavas, gelado. E houve um momento de alívio nessa despedida. Não foi preciso brigar ou nos separarmos, tu me deixaste na paz. Silenciosamente. E foi bom assim. Mas no funeral, querido, com tua mãe aos pedaços e tuas irmãs inconformadas, tive que chorar. Chorei porque era necessário chorar. E mostrar aos outros que éramos felizes, que sentirei tua falta. Fingir como sempre fingimos em vida. Mas me alegrava saber que era o último momento em que deveria fingir. O último ato de nossa amarga união. Em poucos dias, poderia sorrir com nossos filhos e ser verdadeiramente feliz. Por isso, chorei. E, nas lágrimas salgadas, escondia-se o sorriso doce. E ao meu redor todos sentiam pena de mim. Pobre de mim, viúva. Pobre de mim, salva.

Não foi difícil fingir o choro.
Logo no início, as lágrimas não saíam e acreditei que todos saberiam. Mas não demorou a se derramarem as primeiras gotas, escorrendo fingidas pelo meu rosto. Soluços forçados, mãos no rosto. Tapava por vezes os olhos molhados, por outras, o leve sorriso. Satisfeita com a minha convincente tristeza. Foi um ato longo e cansativo, devia ter dito que querias ser cremado. Mas me mantive firme no luto. Quando o caixão foi sendo emparedado, a intensidade dos choros aumentou. E tive que acompanhá-los, querido, tinha que sofrer mais, a viúva infeliz. E fingia uma dor no peito que eu apertava com meu punho cerrado. E as atenções eram todas para mim, a coadjuvante do casal. Quando tua mãe desviou os olhos do caixão para observar minha dor, senti orgulho de mim. Que atuação, querido, que atuação! Caí de joelhos e berrei, dizia coisas estúpidas como “não te vás” e “o que será de mim?”. Logo todos me olhavam, cheios de pena e angústia. E quanto mais me olhavam, mais eu entrava no papel. Desculpe, querido, mas eu roubei o show. Do choro às palmas, logo todos gritavam por mim. “Bravo, bravo”. Eu, a esposa coadjuvante. A esposa “sim, querido”. A esposa invisível. Mas era o último ato e as cortinas logo se fechariam. E os aplausos, querido, eram todos para mim.

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