Histórias de tartarugas

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por Clarice Casado

Não conheço nenhuma história de tartaruga que seja normal. Dizem que tartarugas são bichos que trazem sorte e bons fluidos para uma casa. Vai ver você nem sabia disso, leitor. Mas é o que se diz por aí. Compre uma tartaruga e terá sorte. Sorte, sei lá a natureza dessa sorte: no amor, no jogo, nas finanças, na saúde. Não. Na saúde, não. Nunca ouvi alguém dizer, “Ai, que sorte que tenho na minha saúde, nunca pego gripe”. Está maluca a autora.

Mas, histórias de tartarugas? Tartarugas são bichinhos lentos, lentíssimos. Engraçado associá-las com sorte, bons fluidos. Ninguém quer sorte lentinha, lerdinha. Todo mundo quer sorte rápida, instantânea. Pergunto-me: comprei uma tartaruga, ok. Quanto tempo vai levar pra bichinha começar a me dar sorte? Não sei. E então você passa cem anos de azar vivendo com a tartaruga, até que um dia ela morre: antes de você. “Que porcaria de sorte é essa???”. Imaginei (imaginem) um velhinho bem velhinho, enterrando o cadaverzinho da tartaruga e praguejando…

História de tartaruga número 1: meu filho ganhou uma tartaruga. Não, na verdade, é um jabuti. É diferente de tartaruga, não vive na água, vive na terra, em um terrário (que é igual a aquário, mas sem água. Não, não estou subestimando o meu caríssimo leitor, de maneira nenhuma, estou explicando só porque eu não sabia o que era um terrário até o jabuti vir morar conosco). Pois jabuti é um pouco mais rápido que tartaruga. Dá umas corridinhas de vez em quando. E pode viver até cem anos, ou mais. Bom, claro, você já viu tartaruga estressada? Naquela vida mansa, nem posso imaginar como poderia estressar-se…! Pois eu me estresso só de olhar pra ela (ou ele, no nosso caso, pois é um macho chamado Miguel – ótimo nome, diga-se de passagem), fico estressada. Paradinho ali, olhando pro nada, sem fazer nada. E ainda tem que tomar banho todos os dias. Banho??? Sim, Miguel banha-se diariamente em um pote plástico estilo “tupperware”, com água morna – tem que ser morna, para ativar a circulação dele. Em resumo, toma banho pra se agitar um pouco. É isso mesmo. Não é um clássico banho relaxante, é um banho “agitante”. E o meu filho leva a sério, “Tá na hora do banho do Miguel!”. Miguel tem hora pra tomar banho. Ai, ai. Mas o pobre Miguel não durou muito. Um dia, alguém percebeu que ele parecia estar paradão há muitas horas. Na verdade, tinha estado parado desde a noite do dia anterior, mas, como tartarugas em regra são paradonas, ninguém deu muita confiança. Fomos examinar, na manhã seguinte. O terrário fedia, e o Miguel falecera. Tadinho, seu mini-cadáver foi direto para o lixo. Meu filho ficou muito triste com a perda do Miguel. Voltamos à loja de animais. Contamos a história ao vendedor, que disse que talvez ele tenha ficado doente ou tivesse tido alguma queda. Meu filho olhou-me de canto. Eu derrubara o Miguel uma vez, muitos meses antes. Coitado, foi um tombo e tanto. Meu filho me culpou pela morte, depois, no carro a caminho de casa. Eu não senti culpa alguma. “Ué, mas ele, em tese, não deveria viver cem anos?”, perguntei-me. Mas fiquei calada, ora, viveria sem anos se uma mãe histérica não o tivesse derrubado porque levou um susto quando uma das patinhas ásperas do bicho tocou-lhe o dedo! Pobre Miguel, foi uma exceção. Compramos outro, que foi imediatamente batizado de “Miguel II”. Miguel II mexia-se muito menos que o outro. E mal comia. Ligamos para a loja. Levamos Miguel II para trocar por outro, com medo que morresse também. “Miguel III” viveu conosco por mais alguns meses. Morreu também, cadaverzinho duro e de olhinhos fechados também no lixo. Causa mortis: não sabemos até hoje. Vai ver nossa casa tem uma maldição contra jabutis…

História de tartaruga número 2: um aluno contou-me hoje a história de uma tartaruga que teve na infância. Adorava o bichinho. Não perguntei se ele dava banho na dita cuja. Mas o nome era Guida, apelido da tia do meu aluno, que chamava-se Margarida. E era tartaruga mesmo, isso ele disse. Tartarugas têm a mania de se esconder. Qualquer cantinho é delicioso. Vivem literalmente “à margem”. Um belo dia, a tartaruga do meu aluno desapareceu, “Cadê a tartaruga, onde está a coitadinha”, etc, etc. Concluíram que a pobrezinha havia sido colocada por engano no lixo. Como gostava muito de se esconder (seguindo a tradição da espécie), a família concluiu que ela teria se escondido em uma caixa de papelão grande onde costumavam colocar sacos de lixo. Sem querer, alguém, ao retirar o lixo da casa, retirou a tartaruga junto. Triste fim, o dessa pobrezinha. Bom, cadaverzinho de tartaruga no lixo.

História de tartaruga número 3: eu e meus irmãos, todos com menos de dez anos, ganhamos dos meus pais uma tartaruga. Felizinhos que ficamos com ela, bem lentinha, não incomodava ninguém, vivia numa bacia de plástico cor-de-rosa, com água, claro, porque ela não era jabuti. Nome: Margarida! (Coincidência, não??? Coisas de tartarugas…). Margarida viveu conosco por pouco tempo. Um dia, assim como a do meu aluno, ela desapareceu. Meu pai nos contou que a tinha visto pulando a janela. “Pulando a janela?”. Leitor, não me pergunte como acreditamos nisso. Como o pequeno réptil teria escalado a parede para chegar até a janela era uma questão que nem passava por nossas inocentes cabecinhas… Éramos pequenos, provavelmente acreditávamos em tudo que nosso pai nos dizia. Bons meninos. Devo confessar que acreditei nessa tamanha bobagem por um bom tempo. Obviamente, com o passar dos anos percebi que era uma “mentirinha inocente”, mas nunca soube do verdadeiro paradeiro de Margarida. Recentemente, quando meu filho ganhou o Miguel, perguntei ao meu pai, e ele confessou: ela morrera, e ele não quis contar para nós. Como se pular pela janela do sexto andar não matasse tartaruga… Bom, mas isso não importa. O que importa é que dizem que elas vivem até cem anos… A do meu aluno e a nossa obviamente ficaram fora da estatística. Resultado: cadaverzinho provavelmente no lixo também.

História de tartaruga número quatro (e última): viagem à praia em um Opala Comodoro branco ano 1979, mesmos personagens, meus irmãos e pais. Vemos na estrada uma enorme tartaruga, atravessando com a maior calma de tartaruga do mundo. Meu pai freia bruscamente. Minha mãe grita. A gente não entende nada. Ele para o carro. Ele desce do carro. Ele pega a tartaruga no colo, sob nossos olhares pasmos. Ele a coloca – pasme você, leitor – no porta-malas do Opalão. Provavelmente uma dívida com a tartaruga que quase atropelou: dar um “lar” a ela. Ela vai passar o verão conosco, na casa de praia da minha avó materna. Todos os primos ficam felicíssimos, ela foi a atração do verão. O que aconteceu com essa? Não faço a mínima ideia. Lembro como ela chegou, mas não lembro como partiu. Gosto de pensar que ela não morreu. Gosto de pensar que ela está até hoje caminhando pelas estradas do litoral gaúcho (talvez brasileiro), sendo muitas vezes quase atropelada e outras vezes recolhida por motoristas bonzinhos como meu pai, pra passar o verão com as crianças e fazer a alegria delas. Vai ver qualquer hora encontro com ela em uma estrada qualquer, já velhinha, apoiando-se numa bengalinha, chapeuzinho de surfista, óculos de sol. E sempre levando sorte a todos. Devagarinho. E sempre.

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