O jogo do palito (um ensaio sobre a amizade entre os homens)

jogodopalito

por Clarice Casado

Esta é dedicada a todos os queridos membros da “Liga Profissional Paulistana do Palito” (L.P.P.P.), e também às maravilhosas mulheres que os aguentam…! (incluindo a mim mesma!)

Senhoras e senhores, apresento-lhes o jogo do palito! Palito? “Jogo do palito”? Devem estar perguntando-se, entre curiosos e pasmos, os meus estimados leitores. Sim, palito, palitinho, palitinho de dentes, aquela coisinha horrorosa de madeira que alguns indivíduos utilizam como escova de dentes, sabem? Pois, saibam que essa não é a sua única utilidade. Há alguns meses, descobri que o tão popular palitinho de dentes pode ser usado como instrumento (ou apetrecho, sei lá) de um jogo intitulado “jogo do palito”, ou apenas “palito”, para seus praticantes mais frequentes, engajados, sérios – profissionais da coisa, mesmo. Sim, o “jogo do palito”, ao menos entre os meus amigos (do sexo masculino) mais íntimos, é considerado um jogo sério, seríssimo. Não é qualquer um que encontra-se habilitado a praticá-lo! As crianças são proibidas e as mulheres, bem, as mulheres não são lá muito bem-vindas… O que os meninos preferem, de verdade, é jogar só entre eles mesmos.

Passo a explicar, então, o afamado jogo. Prestem muita atenção! O jogo sempre acontece ao final de um encontro em algum restaurante ou bar, quando estão à mesa amigos que terminaram de almoçar, jantar, ou fazer um happy hour prolongado. O perdedor do jogo deverá pagar a conta. Não há “um” vencedor no jogo. Há vários. Mas há um infeliz (que na maior parte das vezes sou eu, apesar de que, nas últimas duas semanas, venci duas vezes!) que perde, e arca com toda a despesa. Pois bem, cada participante toma posse de um palitinho de dentes e quebra-o em três partes iguais. Cada participante coloca o número de partes do palito que desejar em sua mão fechada (a mão direita, descobri isso em uma das minhas últimas partidas!), e coloca a mão em cima da mesa. A outra permanece escondida, também fechada, embaixo da mesa, de preferência. Verifica-se o número total de palitos que existem “na mesa” (este é um dos “termos técnicos” do palito: “na mesa” significa naquela rodada). Sabendo o número total de palitos, cada participante, em ordem, passa a tentar adivinhar quantos palitos há “na mesa”. Essa adivinhação tem toda uma técnica, que eu, sinceramente, até hoje não fiz a menor questão de querer entender.

Diz uma das minhas amigas que não há lógica alguma no jogo, que é pura sorte. Mas os meninos inflamam-se, indignados, como se isso fosse a maior heresia da história da civilização ocidental e dizem “Sim, claro que tem, tem a ver com lógica matemática, como não?!!!”. E eu, que assumidamente odeio números e contas e ciências exatas, chuto, portanto, qualquer número que vier em minha cabeça, que esteja dentro dos limites do que está “na mesa” (vai ver é por isso que perco tanto…!).

Já os meninos consideram dominar a técnica da adivinhação como algo fundamental, essencial. Utilizam-se até de expressões, criadas por eles (que aqui decidi chamar de “termos técnicos”), como “dois é quatro”, “cinco é um”, “lona” (que significa nada de palitos na mão), “é preto no branco” (algo como “é agora ou nunca”, sei lá, acho que é isto), e outras insanidades desse gênero…! Pois bem, os excepcionais indivíduos que conseguem adivinhar o número de palitos que existem nas mãos fechadas de todos os participantes vão se livrando aos poucos de seu pedaços de palitos, até ficarem sem nenhum. Neste momento, saem do jogo, livrando-se, também, da conta. Quando restam apenas duas pessoas, o jogo se reinicia, ficando cada uma com três pedaços de palito nas mãos novamente. Essas duas pessoas estão na “final” (outro “termo técnico”). Quem perder, será premiado com o pagamento da conta.

Pois então eu dizia que, para os meninos, o jogo de palitos é coisa muito, mas muito séria. Disputam o palito como se estivessem disputando uma final de Copa do Mundo. A “Liga Profissional Paulistana do Palito”, denominação que acabo de criar para os meus queridos amigos competidores deste nobre esporte, é quase como uma Máfia. Assim mesmo, com “M” maiúsculo. A “Máfia do Palito” é apenas um exemplo (ou uma verdadeira constatação) do alto grau de cumplicidade e da enorme capacidade de associação existente entre os homens. As amizades masculinas são peculiares, elas têm regras, como tem o jogo do palito. Regras que devem ser conhecidas e cumpridas, sob pena de exclusão do “clube”. Entre os meninos, formam-se verdadeiras irmandades, o que os falantes de língua inglesa chamam de brotherhood of men. Os homens formam uma classe tão unida que até mete medo. Apoiam-se em qualquer empreitada. Não questionam. Não pedem explicação. Não se explicam. É mesmo uma Máfia. Não há quem não tema a Máfia. Nada que se fale ou se comente ali sai dali, nem sob severíssima “tortura”. São os meninos capazes de criar histórias fantásticas para proteger uns aos outros. E, sabe-se bem, na Máfia não há perdão. Nenhum deslize é perdoado. Quem assistiu o clássico de Coppolla da década de 70, “O Poderoso Chefão” (The Godfather) sabe bem do que estou falando!

A nós, mulheres, diante de tudo isso, cabe tentar compreendê-los, e, sinceramente, tentar aprender com eles a nobre arte da amizade. Estou dizendo alguma mentira? Desculpem-me, meninas…

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