Bordini, 28

bordini28
imagem: Cassiano Rodka / casinha: Olavo Geimba

por Clarice Casado

Ao Padrinhal, à Gugu e às Gurias.
À vó Zenyra, ao Pai e à madrinha Lorena.
Ao vô Janyr e ao tio Vevé.
E a todos que lá viveram.

Cheira o cheiro da casa. Passeia o pensamento. Joga-o na memória. Vê os fantasmas. As cenas, em preto e branco e coloridas. Desperta do sonho para um outro. Joga na memória. De novo. Tal qual rede de pesca. Ouve o choro de um bebê ao longe. É familiar. Era dele próprio. Vê um menino correndo. Buscando. Buscando? Buscando a alma da casa. Sentindo a presença dela.

Percorre seus caminhos, apoiado nela como se fosse uma companheira eterna. Mas, não pode ser eterna, porque o eterno não existe. Existe ele, sozinho, na escuridão. Existem seus pensamentos vagando para sempre dentro da casa. E a casa vivendo. E a casa sonhando. E soprando, porque é que nem vento. Permanece, mas sopra. Bem baixinho, os segredos do passado, “Mas eu nem queria ouvir tudo”, mas a casa conta tudo, ela sabe de tudo. Ela esteve ali, todos aqueles anos, sentiu tudo e provocou tudo. Provou de tudo. E ele nem percebia. Eles nem percebiam. Agora percebem.

O tempo é que se vai, e parece mudo, mas não é.

Vazia, desabitada, sem nada, só os sussurros de tempos idos, os calafrios das imagens nas paredes, memórias vagando e confundindo-se com as escadas, com as janelas e com as marcas profundas dos quadros e das estantes e dos móveis. Marcas deles. Cenas de vidas vagando, um projetor antigo de filmes passando as cenas nas paredes nuas da casa, nas paredes confusas de sua mente, “Conta uma história?”, e conta a história do final para o início, porque assim não dá tanto medo…

O passado ali preso, para sempre, todo o sempre, “Ninguém vai deixá-lo escapar”, ouve ruídos de gente conversando, dizendo “Parabéns, que lindo, outra menina”. Gritos de Gol. Meninos gritando, gritando alto, como gritam os meninos. Risadas e vinho. Carne gorda. Farinha. Perfumes misturados em grandes ocasiões. Abraços apertados e beijos carinhosos. Barulhinhos de presentes se abrindo, música. Música. Sempre música. A música que não cessa jamais. Naquele coração que vai ficar também ali preso na casa. Um choro forte. Dois choros fortes. Três choros fortes. Quatro choros fortes. Cinco? “As mulheres são o segredo da casa, não sabia?”. Gritos. Gritos que a casa engoliu.

E a casa vai ficar ali, “O que vai acontecer com ela?”, “Eu nunca mais vou voltar lá”, rostos tristes – parem, rostos tristes – vocês estarão sempre lá. E ela sabe muito bem disso. Todos entravam e todos saíam e todos sempre voltavam, como se ali fosse a sua própria casa. E era. Há casas que são assim. São de todos. Porque têm alma.

A casa respira (respirando).

A casa sente (sentindo).

A casa soluça (soluçando).

A casa segue (seguindo).

A casa permanece (permanecendo).

Na memória.

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