Voo

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por Cassiano Rodka

O comandante Nélson saudou a tripulação e agradeceu a preferência pela empresa. Sérgio olhou pela janela e viu o que acreditava ser a sua cidade natal. O comandante logo confirmou, era Porto Esperança à direita do avião, com 28º centígrados e a 1800 metros de distância. Haveria um sorteio de um kit de alguma marca de refrigerante para quatro poltronas. A sua era 13F, péssimo número, jamais ganharia nada. Tornou a espiar pela janela. Porto Esperança. A essa distância, tão pequenina e inofensiva. Observou as várias linhas que formavam o desenho impreciso da cidade. As ruas por onde andava, os prédios, as luzes, uma composição tão bonita e silenciosa quando vista lá de cima. Abriu a mão direita e observou sua palma. A cidade inteira poderia caber ali. Imaginou os carros passando pelas linhas de sua mão e as pessoas correndo por todos os lados. Cada uma com sua pressa particular. Imaginou os edifícios crescendo de seus poros e podia ver as pontes e os viadutos se formando em sua pele. Viu o palácio do governo quase ao centro, bem próximo à igreja da Glória. Mais adiante, via a favela do Cachorro Degolado subindo morro acima até a ponta do dedão. Sua casa ficava exatamente onde antes havia uma pinta. Percebeu então que as linhas de sua palma coincidiam totalmente com as de sua cidade e que ele a tinha de fato na mão. Assustou-se com a coincidência e olhou para os lados, desconfiado de que alguém mais pudesse ter percebido tal coisa. O senhor da poltrona E folhava uma revista enquanto a moça sentada na D analisava a aeromoça dos pés à cabeça. Riu de si mesmo. Pensou no absurdo daquela situação. E riu mais uma vez, vagamente, incerto da graça. Tornou a olhar. Na sua palma, a cidade. Fechou a mão.

O comandante Nélson pedia para que todos permanecessem sentados e aguardassem o sinal luminoso para desafivelarem seus cintos. Poucos, além dele, obedeceram. Todos pareciam ter uma enorme ânsia em sair do Boeing 747. “Cada um com sua pressa particular”, pensou ele. Ficou um tempo fitando seu punho cerrado, sem coragem para abri-lo. Por entre seus dedos, enxergava alguns fachos de luz. Olhou pela janela e observou os passageiros saindo. Depois do último degrau da escada, via cada pé tocar o solo e sentia uma coceira na mão. Seguia-os com os olhos e sentia a comichão se espalhando levemente pelo mapa de sua pele. Assustou-se com o toque da aeromoça em seu ombro. Levantou-se com hesitação e pegou sua mala com a mão esquerda. A direita, mantinha firmemente fechada. Desceu a escada e firmou o pé na palma do chão. Olhou para o horizonte e escolheu o seu destino. E partiu, mala em punho, para algum lugar entre o morro da Detença e o dedo indicador.

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