Janela aberta

janelaaberta

por Cassiano Rodka

Na ponta do lápis, o nada.
Olhou a samambaia e quis culpá-la. Maldita planta! Arrancou-lhe um pedaço como se beliscasse um colega no primário. Serviu café no copo de plástico. Não tomou. Na folha branca, uma mosca pousou zombeteira. O que estava errado? Onde estavam as palavras? Onde descansavam suas ideias? Mexia-se na cadeira fazendo-a ranger. Mas permanecia o silêncio das ideias. Observou a fumaça do café. Dançava calmamente e fugia pela janela. As cortinas balançavam-se afoitas querendo seguir a fumaça. Para onde? Talvez culpasse a janela aberta. Era isso! A janela! Por que deixara ela aberta? Ela estava sugando suas palavras, entregando-as ao vento. Decidiu escrever palavras soltas, sem nexo. E, ao escrevê-las, viu soltarem-se das folhas, uma a uma, flutuando em direção à janela. Algumas poucas ficavam presas na cortina e ele procurava pegá-las, mas desmanchavam-se por entre os seus dedos. Continuou escrevendo, coisas, nomes, adjetivos, o que fosse. Rabiscava rapidamente, esperando mantê-las no papel, e produzia uma enxurrada de palavras que voavam janela afora. Jogou o lápis num canto e foi à prateleira. Pegou o primeiro livro que encontrou e abriu as suas páginas, libertando frases e diálogos. Sentiu-se ele mesmo livre e continuou a proeza com satisfação. Livro por livro, página por página, numa empolgação cada vez mais frenética. Largava os livros vazios pelo chão e ria sozinho do turbilhão de letras que deixava seu apartamento em direção à rua. Enciclopédia, dicionário, Dostoievsky. Torcia a chave dessas prisões de papel e abanava as palavras indicando-lhes a saída. Livro de receitas, guia da TV, Rubem Fonseca. Do lado de fora, palavras encontravam-se nas esquinas e histórias formavam-se pelas calçadas. Frases de Oscar Wylde riam dos transeuntes. Capítulos de Julio Cortázar ignoravam os semáforos. Poemas de Cecília Meirelles estendiam a mão aos solitários enquanto poesias de Carlos Drummond de Andrade aproximavam os namorados. Do lado de dentro da janela, ele olhava satisfeito o efeito de sua proeza. Deleitou-se ao ver umas crianças que brincavam de roda com as histórias de Ziraldo e riu até chegar às lágrimas ao assistir o susto da pobre Dona Adelma: Foi à padaria comprar um pão doce e deu-se de cara com um texto de Anaïs Nin atravessando a rua.

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