Enmoçar

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por Clarice Casado

Vai ver sou mesma uma garota de sorte. E tenho essa mania boba de ainda me considerar uma menina. Louca, isso mesmo. Estou a alguns meses de completar trinta e dois anos. Mas as pessoas mais loucas ainda ao meu redor insistem em dizer que pareço mais jovem. Hoje mesmo uma moça que mal conheço disse que eu parecia ter vinte e três anos. E sei lá qual o motivo bobo que me faz achar isso uma beleza, uma verdadeira maravilha. “Tadinha, tadinha de mim”, como se a juventude tornasse alguém mais inteligente ou rico de caráter. É uma loucura como a busca incessante da juventude é um dois maiores objetivos do ser humano. É um clichê dos grandes, mas é tão verdadeiro que dói, como doem todas as verdades bem verdadeiras. Verdade verdadeira é pior que tapa na cara. Uma marca violenta que dura um tempão.

Quando você tem quinze anos, quer parecer dezoito, para poder ser tratado como adulto: votar, dirigir, beber (não necessariamente ao mesmo tempo), não ser barrado em porta de boate. Nunca fui barrada em porta de boate. E hoje as pessoas acham que pareço oito anos mais nova. Difícil de entender? Sim, para mim, dificílimo. Olham as minhas fotos de vinte e poucos anos e dizem que pareço mais velha nelas do que hoje. E eu? Fico toda felizinha… Não vou mentir. E mente quem diz que não fica todo contentinho se alguém diz que você parece mais novo. “Mais novo” é até melhor que mais belo, mais inteligente, mais magro, mais feliz. Diga a verdade, você alguma vez abriu um sorriso largo depois que alguém lhe disse, “Ah, você parece tão mais feliz agora…”. Convenhamos, o máximo que você vai fazer é pensar que seu amigo está meio doidinho. Ou bêbado. Ou sem assunto, o que é bem pior.

E então, veio a pergunta (ou constatação): estou remoçando? É possível, em vez de envelhecer, “enmoçar”? Algumas pessoas não envelhecem, “enmoçam”. “Ai, Fulana está “enmoçando”, você não acha? Cada dia menos rugas, menos cabelos brancos, mais memória e vigor”. Imagino esta frase sendo dita em um daqueles filmes de futuro, estilo Blade Runner, onde as ruas da cidade são sempre escuras, molhadas e cobertas por um fog constante, com gente estranha de com roupas esquisitas andando pelas ruas, montes de anúncios luminosos em terceira dimensão, carros voando, edifícios de quatrocentos andares, e de repente surge uma cena de uma amiga dizendo pra outra a tal frase. E é bem isso mesmo. Fonte da juventude já existe, principalmente pra quem tem muito dinheiro. São pílulas, métodos revolucionários de ginástica, operações plásticas, cremes, montes de coisas que seduzem todo mundo. Tenho certeza de que se toda a população mundial tivesse acesso a tudo isso, iria certamente desfrutar. E “enmoçar”, com o maior orgulho.

Loucura maior seria o processo de “enmoçamento”. A pessoa iria enmoçando em ritmo acelerado, e inclusive suas células sofreriam um processo de enmoçamento, o que possibilitaria que ela voltasse aos estágios iniciais de sua vida. Teria novamente quarenta anos, e sofreria mais uma vez a famosa “crise”, mas ao contrário, “Nossa você vai voltar aos quarenta, isso merece uma comemoração!”, e assim sucessivamente, voltaria aos trinta, ficando mais feliz ainda com isso, e aos vinte, “Ah, maravilhosos vinte, quanto vigor, quanta energia, nada me satisfaz mais do que não fazer nada”, e iria enmoçando, enmoçando, até ser novamente criança, e então curtiria a infância ainda mais, como se fosse a primeira vez, mas sabendo ser a segunda, a maravilhosa segunda chance, meu Deus, as segundas chances, se todos as tivéssemos, tudo o que poderíamos mudar. E logo ouve o choro de si mesmo, está em um berço, é um bebê novamente. E depois disso? E depois disso, pelas leis do enmoçamento, deveria acabar novamente em um útero materno. Um quente e escuro lugarzinho, aquele lugarzinho perfeito de onde saíra há muitos anos, e para onde voltaria agora, úteros de aluguel, que acabariam por abrigar aqueles que escolhessem pelo enmoçamento. Sim, porque o enmoçamento não seria obrigatório. E aqueles filhos de mães de aluguel seriam chamados de “os renascidos”. E eles renasceriam e seriam recriados, por outra família, e teriam outros irmãos, e outros parentes, e outros amigos e outra vida, mas sempre conscientes de sua vida anterior e de sua condição de renascidos.

E assim, acabariam por conviver em desarmonia, pessoas que envelhecem naturalmente e pessoas que enmoçam e renascem, porque, imagine, leitor, o caos que tal fenômeno da ciência poderia causar? Pessoas que optassem pelo enmoçamento não poderiam jamais ter filhos, afinal, o que fazer com as crianças quando o pai ou a mãe começasse a enmoçar? Imagine-se os inúmeros problemas jurídicos e filosóficos que tal “opção de vida” poderia causar à Humanidade? Como resolver tal situação instaurada? Como viver assim? Imagino que haveria uma grande cisão na sociedade mundial, separação essa que não deixaria margem para neutralidade. Seria o estopim de mais uma guerra mundial. Bandeiras e palavras de ordem seriam criadas: “Envelhecimento digno, sim! Abaixo o enmoçamento!”, “Segundas chances: diga sim ao enmoçamento!”. E o povo nas ruas protestaria pelos seus direitos, lutando por suas causas tão opostas e ao mesmo tempo tão próximas, lutando em uma guerra sem armas, uma guerra de idéias, de árduas discussões filosóficas: reviver ou morrer?

Vai ver sou mesmo uma garota de sorte. São quase sete e meia da noite de segunda-feira e acabo de fazer ficção científica, pela primeira vez.

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