Metodologia

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por Clarice Casado

Não é sempre que às oito e meia da manhã você se depara com coisas inusitadas. Elas acontecem, mas não é sempre. Fatos inusitados me perseguem. Esse que vou relatar, concluí depois, nem é tão inusitado assim, mas é, no mínimo, curioso.

Todas as terças-feiras pela manhã tomo café na lanchonete da minha academia de ginástica, um lugarzinho legal e envidraçado de onde se pode avistar as quatro piscinas do lugar, com uma meia dúzia de corajosos mergulhados na água a dar braçadas animadas. É bom tomar café da manhã ali, olhando a piscina azul e o pessoal se exercitando nela. É diferente. Saio da rotina nesse dia, como queijo Minas frescal em vez de queijo cottage: só esse pequeno detalhe já altera meu dia.

Sento quase sempre na mesma mesa, de onde dá pra ver bem a piscina. Coloco minha bolsa na cadeira, vou até o balcão, peço um misto no pão integral, com queijo branco e peito de peru, e um café expresso com leite desnatado, mais leite do que café. O cara sempre me pergunta se o sanduíche é com tomate, e eu digo que não, sempre digo que não. Volto pra mesa, tiro meu celular da bolsa e coloco-o em cima da mesa. E então fico esperando ela chegar. E ela geralmente chega logo.

Ela tem a pele muito branca, cabelos lisos, longos e negros. Deve ter uns vinte e cinco anos. Rosto não muito bonito, mas um corpo ótimo, magra, com músculos definidos. Ela chega como sempre, a bolsa numa das mãos e a sacola de ginástica na outra. Larga-as em uma mesinha geralmente perto de mim, levanta-se, vai até o buffet de café da manhã, escolhe sempre as mesmas coisas: duas fatias de pão integral, queijo branco, peito de peru e tomate. Sim, ela gosta de tomate. Leva tudo num prato até o balcão e entrega ao atendente, dizendo algumas coisas que nunca ouço. Ela mesma escolhe os ingredientes de seu sanduíche. Volta à mesa, pega uma bolsinha dentro da bolsa de ginástica, vai até um espelho em uma das paredes da lanchonete, e começa a se maquiar, ali mesmo. Maquia-se enquanto espera seu café. Nesse exato momento chega sempre meu lanche.

Começo a comer observando-a, curiosa, porque sei que dali a alguns minutos começará um dos mais interessantes rituais pessoais que já presenciei em minha vida: O SANDUÍCHE. Ela senta, já maquiada. Espera mais um pouco. Chega o sanduíche. Ela olha para ele com um olhar de desaprovação, sempre. Então, começa: tira a fatia de pão de cima, e começa a tirar todos os pedaços de tomate de dentro do sanduíche, e os coloca organizadamente nas bordas do prato. Na primeira vez que a vi, pensei: ela não gosta de tomate, como eu, e o cara colocou por engano. Engano o meu. Ela fecha novamente o sanduíche. Dá a primeira dentada, enquanto corta (com uma mão só) os pedaços de tomate em pedacinhos muito menores, e começa a colocar cada pedacinho em cada mordida do sanduíche, uma a uma, premiada com um pedaço especial de tomate. Enquanto faz isso, ainda tira e recoloca alguns pedaços de peito de peru no sanduíche, com um garfo, em movimentos tão sincronizados quanto os dos nadadores ao meu lado. E, ainda, em cada mordida, muito sal que ela mesma coloca. Esse ritual segue exatamente igual durante toda a refeição, muito rápida, rapidíssima. Todas as semanas. Todas as terças. Talvez todos os dias da semana, não sei, porque só tomo café lá na terça. Tenho tanta curiosidade, que já cheguei a pensar em ir em um outro dia qualquer, no mesmo horário, só para conferir se aquilo acontece mesmo todos os dias.

Observei-a durante muitas semanas, antes de vir contar aos meus leitores essa interessante e ao mesmo tempo tão monótona história. Pensei muito sobre aquilo, como sempre penso em coisas aparentemente sem importância como essa. Pensei que tinha ela um ritual próprio, como temos cada um de nós também os nossos, cada um dentro de seu grau de método. Também tenho os meus. Aliás, tenho o meu naquele próprio lugar, como sempre o mesmo sanduíche, observo sempre os nadadores e a ela própria, a moça do sanduíche complexo. Poderia haver ali um outro ser me observando, e pensando na loucura do fato de eu observar a moça com tanto método. A loucura de saber passo a passo o café da manhã dela.

Comecei a lembrar de diversas pessoas relatando-me suas metodologias diárias, lembrei-me de um aluno que contou-me seu método para organizar a bolsa de natação pela manhã, na dificuldade de lembrar-se de tudo que precisava levar, que precisava ser ainda mais metódico para não esquecer nada. Pensei no meu filho pequeno, que tem diversos métodos para várias coisas: brincar, escovar os dentes, fazer a lição de casa, uma certa ordem para se lavar no banho: pernas, pés, corpo, cabelos.

Não vivemos sem as metodologias. Não somos nada sem elas. Precisamos delas para tentarmos ter a certeza de que nosso dia será confortável. Nossas metodologias pessoais são por nós mesmos controladas, e é por isso que são boas. O resto de nosso dia é incerto. Ao colocarmos os pés na rua, tudo pode acontecer, e sabemos disso. Queremos o conforto do método, precisamos do método. O método traz, de certa maneira, felicidade. O pão do nosso jeito, a bolsa arrumada do nosso jeito, o banho tomado exatamente como queremos. Essa vida doida que levamos pode tentar tirar-nos tudo: a segurança, o dinheiro, a tranquilidade, a sanidade, muitas vezes. Mas, por favor, não nos tire o método.

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