A outra eu

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por Clarice Casado

A outra eu é doida. Completamente louca. Faz coisas que nem entendo. A outra eu tem pele morena e cabelos anelados. A outra eu tem olhos azuis faiscantes. A outra eu não dá a menor pelota pra opinião dos outros. Sai gritando por aí. Briga com todo mundo. A outra eu briga com desconhecidos no telefone, dá chilique, passa descompostura. A outra eu surpreende até a mim.

A outra eu anda de pé descalço, não penteia os cabelos, não usa maquiagem. A outra eu é maluca. Doida, doida. A outra eu anda de moto, e sem capacete. A outra eu é irresponsável, completamente. A outra eu não tem medo de avião. Nem de mar. Nem de ladrão. Nem de não conseguir o que quer.

A outra eu não chora a toda hora, por nada. Não chora escondido. A outra eu não chora, simplesmente. Ela é meio homem, acho. Cai e não se machuca. Toma banho gelado no inverno. Faz sauna em pleno verão. Toma banho de chuva. Não carrega remédio na bolsa. Não tem celular. Anda a pé. No escuro.

A outra eu me dá um medo. E não tem medo nenhum. A outra eu escreve um romance por dia. É até meio carrancuda, sabe que todo mundo tem medo dela. Mas não está nem ligando. Sobe pelas paredes. Anda de patins, escala o Everest, nada daqui até o canal do Panamá. E ainda diz que não ficou cansada.

A outra eu é uma doida. Mata barata e não foge de besouros. Dá beijos em cachorros. Anda a cavalo pelos pampas. Come vinte pães de queijo e não sente culpa. Mistura vodca com vinho e continua sóbria.

A outra eu sabe dar cambalhota embaixo d’água. Joga todos os esportes como ninguém. Pula a fogueira e não está preocupada se vai se queimar. Ama todas as estações do ano. Não reclama em dia de chuva. Não tem medo de dizer não. Escreve coisas malucas em francês. Diz absurdos em inglês. Canta em alemão e recita poemas em italiano. Arranha japonês e mais alguns dialetos orientais.

Não tem ninguém no mundo como a outra eu. Ela me deixa louca, essa outra eu. Me deixa mais eu do que nunca. E não se importa em ser a outra eu. E daí? Sou mais eu. Ela não fica ouvindo bobagens calada, e nem dá um dedo pra fugir de uma briga. A outra eu lê livros e revistas começando pelo final. E termina sempre todos os livros, mesmo os que acha muito ruins.

A outra eu me surpreende com suas ideias aparentemente inaceitáveis. Viajou o mundo todo dormindo em barracas e abrigos e coisinhas desconfortáveis assim. E tem sempre as melhores histórias pra contar.

A outra eu às vezes me olha esquisito. Nem me reconhece. E por que reconheceria? Somos tão diferentes. É uma metida, descarada, desaforada, sabida. Fala pelos cotovelos. É o centro das atenções. Está com um monte de quilos a mais, e consegue fazer com que todos a achem linda. A mais bela.

Acho que a outra eu é uma fada. E, ainda assim, ela consegue rir de mim.

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