Coisas de menina

coisasdemenina

por Clarice Casado

Estou grávida há dois meses, e já sei que vou ter uma menina. Um moderníssimo exame de sangue chamado de sexagem fetal permite aos pais saberem o sexo de seus bebês bem no início da gravidez. Saber o sexo é apenas um detalhe, uma curiosidade que parece até boba perto da verdadeira expectativa de um bebê e da incerteza que temos sobre seu constante bem-estar e perfeita saúde. Só quem é pai ou mãe ou está prestes a ser compreende o que quero dizer: queremos que nossos filhos sejam perfeitos fisicamente e mentalmente. O resto é resto. Pelo menos eu penso assim. Mas é claro que saber o sexo faz com que aquele projeto de ser humano torne-se mais humano, mais gente, porque somos afinal, homens ou mulheres, e essa diferença faz uma grande diferença. É diferente ser homem, é diferente ser mulher. Todos sabemos disso. Muitas mulheres querem a igualdade, mas esta não existe, e nunca existirá. A começar pelo fato de podermos gestar um filho, e os homens não. Eles podem gerar um filho conosco, mas quem carrega um pequeno corpo e uma pequena alma dentro de nós somos nós mesmas, mulheres. Isso temos e eles nunca terão. E eles imaginam o quanto isso seja maravilhoso. Só um maluco não levaria isso em consideração.

E assim o fato de meu bebê ser mulher mudou tudo, claro que mudou. Tenho medo do que a espera no mundo. Sim, porque o mundo é mais cruel com as mulheres, e aqui não estou querendo parecer vítima ou defensora de um arcaico feminismo, não, é a mais pura verdade. O mundo, apesar de toda a sua evolução social, ainda apresenta-se mais difícil para as meninas. A mulher é mais frágil emocionalmente, em geral, que o homem. Acaba sendo vista como “chorona”. Ela é mais organizada, e por isso muitas vezes leva a fama de “chata”, “pernóstica”. Assim, fico dividida entre duas ideias: fazer de tudo para que minha filha seja completamente mulher, ou fazer de tudo para que ela saiba controlar suas características femininas e sofrer menos. Estarei louca? Creio que não. Penso mesmo nisso. Acho que o mínimo que posso fazer por ela é pensar nisso: prepará-la para um mundo que em regra não irá tratá-la como deveria.

Meu filho mais velho, de quem muito já falei em meus textos, tem apenas cinco anos, e já o pego dizendo frases como “Isso é coisa de mulherzinha”, sendo que jamais ele ouviu isso de mim nem de meu marido. Onde ouviu? Pelo mundo. Pelo mundo afora ouve-se muita coisa. Basta estar no mundo para ser alguém no mundo com alguma opinião já incutida por esse mundo. Mesmo sem que se perceba. E eu tento dizer a ele algo que talvez não seja verdade, “Filho, não há coisas de mulher ou coisas de homem, tudo depende de tudo”. Em realidade, penso que em parte ele tem razão, pois há, sim, coisas de homem e coisas de mulher, claro que há, pois, senão, não existiriam as diferenças das quais falei no início. Mulheres têm suas coisas e homens têm suas coisas e isso não significa que não possam de vez em quando tentar trocar essas coisas. Talvez eu deva dizer isso ao meu filho. A mulher pode chorar por uma bobagem, porque em regra a mulher chora mais mesmo, mas o homem também pode vez ou outra experimentar essa sensação sem vergonha ou sentimento de culpa, por pensar que está a agir “como mulherzinha”.

O importante é ter consciência que as diferenças existem, e que temos de conviver – e bem – com elas, para que possamos ser mais felizes. Guerra dos sexos é definitivamente coisa do passado.

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