Dia das crianças

diadascriancas

por Clarice Casado

Entraram no meio da noite. Não, já era madrugada. Ela sentia um pouco de medo, mas não comentou nada com ele. Tentaram entrar pela porta, mas não conseguiram, o vidro era muito pesado e resistente. Conseguiram trincá-lo apenas. Tentaram pela vitrine. Foi mais fácil. Partiu-se sem muito barulho, ninguém viu nem ouviu. Pensaram estar com sorte.

O coração dela parecia que ia sair pela boca, sentia a pulsação de um modo tal como nunca sentira em sua vida. Parecia que estava com febre até. A imagem dos três filhos que surgiu-lhe na mente acalmou-a um pouco. Pensou na carinha deles quando vissem os presentes. Sentiu vontade de chorar. Engoliu o choro quando ele a olhou.

Ele não parecia nervoso. Parecia calmo até demais. Concentrado como se estivesse executando a tarefa mais árdua de sua vida. Tinha conseguido uma caminhonete velha emprestada com um amigo. Não conseguiria finalizar a operação sem um carro. Lembrou-se do dia em que passara ali com os filhos, em um domingo de sol quente. As crianças olharam a vitrine e enlouqueceram com os enormes bonecos de pelúcia.

No dia seguinte, procurou no armário sua melhor roupa e foi até a loja, só para saber o preço dos brinquedos gigantes. Naquele dia sim, estava nervoso. Nunca tinha entrado em uma loja como aquela, com coisas tão caras. Sentiu-se até meio oprimido pelo ambiente branco, iluminado e limpo. Falou com uma moça simpática, “Boa tarde, poderia saber o preço desses bonecos de pelúcia enormes?”. Não acreditou quando a moça disse. Queria mesmo era perguntar se ela estava falando sério. Não teve coragem. Era quase um salário de um mês inteiro no supermercado onde trabalhava como caixa. Disse obrigada e saiu perturbado, uma sensação que já tivera antes, mas não tão fortemente como agora. Um misto de indignação, raiva, impotência e incompreensão. Não tinha raiva de ninguém, não odiava o dono da loja, pois sabia que provavelmente aquele boneco deveria ter vindo de algum país muito distante, deveria ser muito especial, ser caro de verdade. Tinha uma raiva apenas. Indignado estava por não ter dinheiro para comprar os bonecos para aos filhos, que falavam sempre neles desde o dia em que os viram. Impotente sentia-se porque nada poderia mudar em sua situação financeira. Não tinha condições de arranjar um emprego que lhe pagasse mais, pois não concluíra nem a quarta série do Ensino Fundamental. E incompreensão, sim, não compreendia por que não podia. Não compreendia por que a vida o tinha colocado naquela situação. Naquela situação de querer dar algo aos filhos e não poder. Pensou que jamais deveria ter passado por aquela rua chique de um bairro abastado com os filhos naquele domingo. Resolveu mudar de ares, e deu no que deu. Os filhos haviam tomado contato com outro mundo, outra realidade, uma realidade que para eles parecia sonho. Que erro, “Errei”, pensou, definitivo.

Chegou em casa triste naquela noite. Ela estranhou, porque, apesar da vida simples que levavam, ele tinha sempre um humor muito bom. Olhou-a de um jeito estranho. Ela sentiu o olhar diferente. Queria perguntar o motivo, mas às vezes tinha medo dele. Nem sabia a razão do medo, mas tinha medo. Ele perguntou como tinha sido o dia, ela contou as coisas que as crianças tinham feito, as brincadeiras, falou sobre a lição de casa. Ela ficava em casa com as crianças, estava desempregada há alguns anos, e, mesmo se arranjasse trabalho, não poderia sair de casa, porque não tinha com quem deixar as crianças, e os dois concordavam que eles eram ainda muito pequenos para ficarem sozinhos a tarde toda.

Ele jantou muito quieto, apenas perguntando de vez em quando coisas para as crianças. Ela o olhava um pouco tensa. Algo havia acontecido.

Arrumou a cozinha enquanto ele colocava os filhos para dormir. As crianças falaram-lhe mais uma vez sobre os bichos de pelúcia, o dia das crianças era amanhã, “Papai, a gente não poderia ganhar aqueles bichos?”. Ele sentiu como que uma pontada no peito. Teria que dizer a eles a verdade, jamais poderiam ter aqueles bichos, pelo menos não quando crianças. Um dia, por que não, poderiam ter mais sorte que ele na vida e ganhar mais dinheiro, e, por que não, comprar bichos como aqueles. Mas sabia que os bichos só tinham aquela graça toda para eles porque eram crianças. Sua cabeça agora doía. E tudo isso deu-se em segundos, os segundos entre a pergunta das crianças e sua resposta, “Sabem, meus filhos, o papai ama muito vocês. E acho que nesse ano vocês merecem mesmo aqueles bichos, porque têm sido bonzinhos, a mamãe sempre conta como se comportam bem, como estão aprendendo a desenhar e a ler, é, vocês vão ganhar os bichos, sim”. As crianças começaram a rir e depois gargalhar e depois a abraçá-lo e beijá-lo, uma das meninas até chorou. Meninas são mesmo emotivas, desde pequenas. Deu boa noite e saiu do quarto, apagando a luz.

Enquanto ele saía meio que perdido de dentro do minúsculo quarto, enquanto sentia-se como que em outra casa, em outra cidade, em outro mundo, ela, na cozinha, que ouvira toda a conversa e toda a gritaria de felicidade das crianças, ela pensava que ele deveria ter enlouquecido. Ficou calada. Segurou firme o prato que lavava.

Ele parou no meio da pequenina sala, os olhos fixos no nada. A sensação de indignação, raiva, impotência e incompreensão tinha ido completamente embora. Sentiu-se poderoso, e não tinha ideia de onde pudesse ter vindo aquele sentimento. Sabia exatamente o que deveria fazer, e nem estava com medo. Tinha que fazer. Não era algo sobre o qual pudesse pensar. Pensar seria ruim. Precisava apenas pôr o plano em prática.

Quando entrou na cozinha, ela o esperava sentada em um banquinho. Ele chegou perto e passou a mão por seus cabelos negros. Amava-a como sempre. Sabia que isso os mantinha até hoje juntos, apesar de tudo. Não disse nada. Ela olhou-o também, algumas lágrimas nos olhos cor de mel. Ficavam mais bonitos naquela luz desmaiada da cozinha, ele pensou. Lembrou-se da expressão dela quando ele lhe dissera, na noite anterior, que iria até a loja saber o preço dos bonecos. Seus olhos falavam. E ele geralmente entendia. Entendeu que os olhos dela não aprovavam sua ida. Mas ainda assim, foi.

Ela também entendera seu rosto triste ao entrar em casa, mas calara, justamente para não ter que dizer “Eu avisei…”. Ele entendera também o silêncio dela.

Abraçaram-se com carinho, por um tempo longo. Um abraço daqueles que valem por uma vida inteira.

Ela desvencilhou-se dele bruscamente quando ele sussurrou-lhe algo ao ouvido. Tinha agora mais lágrimas nos olhos, que secaram rápido. Invadiu-lhe um calor esquisito, e ainda era junho. Ela olhava-o fixamente, e pensava nos três filhos sorrindo, pensou no cabelo todo arrumadinho das meninas de manhã, antes de irem para a escola. Lembrou do dente do filho que recém havia caído, deixando-o com o sorriso banguela mais lindo do mundo.

Naquela mesma noite, ela foi bater na porta da casa de uma amiga e vizinha, perguntando se poderia ficar com as crianças por algumas horas, eles precisavam sair com urgência. A amiga nem perguntou os motivos, apenas foi. Ele telefonou muito rapidamente para um colega de trabalho que tinha uma caminhonete velha, quase caindo aos pedaços, mas que ainda rodava. O colega emprestou, trabalhavam juntos há anos. Ele prometeu entregar-lhe no dia seguinte.

Os dois pegaram um ônibus até a casa do colega, eram mais de meia-noite. Sentiram o gelo da madrugada como nunca. Resolveram esperar algumas horas, para que a cidade ficasse mais deserta. Pararam com o carro em uma rua próxima à casa do colega, absolutamente mudos, o que lhes ocupava eram os pensamentos, muitos. O trajeto até a loja foi rápido, mas pareceu-lhes imensamente demorado. Não trocaram uma só palavra durante todo o tempo. E assim foi durante todo o assalto. Quando conseguiram entrar, localizaram rapidamente três bonecos, um leão para o menino, uma girafa para a menina mais velha e um urso para a mais nova. Ele deparou-se com as etiquetas com os preços e arrancou-as com força. Ela nem olhou. Um a um os bonecos foram sendo colocados no carro. Tudo foi muito rápido. Ela parou de sentir frio e medo enquanto estava ali. Ele sentiu-se feliz, feliz, muito feliz. Nunca fora tão feliz. Entraram rapidamente no carro. Partiram sem olhar para trás.

Quando chegaram em casa, era quase de manhãzinha. Ela dispensou a amiga sem que ela percebesse nada, agradecendo-a. As crianças ainda dormiam serenas. Colocaram os bonecos no pequeno quarto, meio que amontoados. Os enormes bichos faziam com que o quarto parecesse ainda menor. Sentaram-se no chão e sorriram um para outro, e depois para as crianças. Abraçaram-se e adormeceram ali mesmo. Não sonharam. Nunca mais sonharam.

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