Nos olhos do relógio

nosolhosdorelogio

por Clarice Casado

“Olhei tanto para o relógio que aprendi a coreografia dos ponteiros. Sei cada movimento de cor: o frenético balé da mudança de segundos, a lenta transformação do primeiro minuto em último, os ângulos perfeitos das horas quebradas. Dou corda no relógio e ele dá vida a mim. Danço conforme o ritmo. E a música que ouço sussurra tique taque tique taque tique taque…”

“O relógio”, Cassiano Rodka

Minha imagem mais forte sobre relógios é tão marcante quanto o dia em que olhei pela primeira vez o rosto da minha mãe. Lembro-me bem do dia, sim. Azar dos cientistas que iriam dizer que isso não é possível, que sou uma doida. E sou mesmo. Olhei-a, após ver aquela luz branca toda ao meu redor, pensando, “O que é isso, onde é que vim parar???” Lá dentro estava bem melhor e mais quentinho. Até hoje, detesto luz intensa diretamente no meus olhos. Minha mãe sempre me disse que isso era um problema de pessoas que tem olhos claros, como os dela. Os meus não são tão claros, são apenas esverdeados. Os dela são de um azul tão azul, que, sinceramente, não sei se até hoje conheci alguém com uns olhos como os dela. E tenho até hoje essa obsessão pelos olhos dela, daquele azul de mar do Taiti, desconcertante. E eu me lembro justamente disso, depois da claridade toda no meu rosto, a visão dos olhos dela, parecia que eu estava mergulhando em um mar (sendo que eu ainda não tinha visto um mar na minha curtíssima vida). Primeiro minuto: Apgar 9. Quarto minuto: Apgar 10. Bebês recebem nota quando nascem. Se não me engano, fui 9 e 10. Isso é detalhe. Ela me olhou e eu mergulhei no azul dos olhos dela, e sabia quem ela era, claro que sabia. Morei nela por nove meses. Quando ela falou alguma coisa que não entendi, reconheci sua voz. Era ela, era ela, finalmente a conhecia.

Mas eu dizia no princípio que minha imagem mais forte sobre de relógios era tão marcante como o primeiro dia em que vi minha mãe. Sempre quando penso em relógios, penso nela, lembro dela dando corda em um antigo relógio de parede (herdado de alguma avó, tia-avó, algo assim). Ela dá corda nele até hoje. E ele, lembro-me bem, insistia em sempre adiantar em dez minutos. Ela ia lá, dava a corda, acertava (porque sempre foi – e ainda é – muito meticulosa, organizada, virginiana por excelência) os ponteiros, abrindo uma portinha de vidro que protegia o grande relógio. Mexia nos ponteiros finos, de ferro. Mas ele teimava em implicar com ela. Parecia que estava vivo, parecia que fazia aquilo só pra incomodá-la. Ficava lá a nos roubar minutos (pra onde foram, penso hoje, onde estarão?). E ela, inconformada, voltava a mexer nele. Vai ver o relógio nutria uma secreta paixão por minha mãe. Queria vê-la, olhar bem dentro dos olhos azuis dela umas dezenas de vezes por dia…

Nunca pensei nela assim, como senhora do tempo na nossa casa. Ela era a senhora da casa, disso não tenho a menor dúvida. Estávamos ali, penteados e arrumados e limpinhos e felizes todos os dias porque ela sempre zelou por nós. Encontrava tempo em meio aos livros da escola, provas e redações infinitas de alunos, encontrava tempo pra brincar conosco e pra nos contar histórias em livrinhos mágicos. E lia as histórias como ninguém. Vai ver que é por isso que até hoje não consigo ir dormir sem ler pelo menos uma linha de um livro. E o tempo passando. Imagino que mesmo depois que dormíamos, ela ainda ia ter umas conversas com o relógio. Brigava com ele, mas também eram amigos. Meu pai odiava as badaladas do relógio. O relógio badalava quando se completavam as horas inteiras, como se fosse um sino de igreja, e meu pai badalava de raiva. Um dia ela resolveu então desativar as badaladas. Mas me lembro que de vez em quando ele badalava do nada. Uma coisa doida, sem explicação. Acho que era pra chamar a atenção dela. Queria vê-la novamente. E aquelas badaladas nos botavam medo. Eu morria de medo. De repente, relógio badalando, dentro de mim muito forte, as batidas do coração, bate, badala, bate, badalando. Útero. Ele ficava anunciando horas, sem que quiséssemos saber. Anunciava as horas, e chamava minha mãe. E funcionava. Lá ia ela, pra ver o que estava acontecendo com o danado do relógio. Ele conseguia mesmo o que queria.

Hoje ele não badala mais. Ao menos, pelo que eu saiba, não mais. Não moro com ela há muito tempo. Mas ainda sou cercada de relógios por todos os lados. Há um aqui, neste momento, olhando para mim, na tela do computador. Há outro no mostrador do aparelho de DVD à minha frente. Há ainda na cozinha, no meu pulso, no meu celular, no meu banheiro, na cabeceira da minha cama. E me pego todo o dia controlando as horas, os minutos, acertando os “ponteiros” de um e de outro como uma desesperada, para ver se consigo com que todos fiquem em sincronia. Doce ilusão, a minha. Devia ter aprendido com minha mãe que se pode tentar domar um relógio, mas essa é tarefa impossível. Ele se movimenta. E muito sozinho. Nos faz ir e vir. Sorrir, sofrer. Estressar-se, acalmar-se. Correr, ficar. Sentir saudade. Permanecer.

Nasci às 18h20 de um dia de verão, em março. Minha mãe sempre soube e sabe até hoje exatamente o horário. Estava lá o relógio, com aquele tempo ali chegando-estando-já-saindo. Estavam lá os olhos dela, me olhando. Como me olham, até hoje, mesmo de longe.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s